Cristovam Buarque - Educacionista

Educação de qualidade igual para todos

CRISTOVAM BUARQUE

O artigo anterior, que teve como título "O parteiro ausente", afirmava que há um Brasil novo querendo nascer, mas falta uma força política capaz de realizar esse parto histórico.

Os candidatos a presidente para o segundo turno das eleições de 2010 já parecem escolhidos, tanto pela mídia quanto pelos institutos de pesquisas, dispensando o primeiro turno. Ambos os candidatos pré-escolhidos apresentam discursos iguais: o da aceleração da economia.

Não incorporam propostas para mudar o rumo da história brasileira, em direção a um novo projeto nacional, como fizemos em 1888, 1889, 1930, 1955, 1985. E nunca foi tão importante essa reorientação, diante da crise financeira, econômica, ecológica e social.

A eliminação do primeiro turno e o descaso pela realização de prévias nos partidos não só adia a possibilidade de reorientação histórica para nascimento do novo Brasil, como nem sequer permite seu debate. E a ausência desse debate tem consequências trágicas sobre a formação política de nossa população, e ainda mais de nossa juventude, órfã de propostas novas para nosso país.

Desde que reconquistamos a eleição direta, em 1989, algumas utopias foram apresentadas durante as campanhas.

Personagens como Brizola, Lula e Roberto Freire, Ulysses, Covas, traziam propostas que se chocavam com as de Collor. Lula e Brizola traziam propostas que confrontavam as de Fernando Henrique. Em 2006, diante da força do Lula, apenas o PDT e o PSol tiveram a ousadia de apresentar candidatos com opções aos discursos similares dos principais candidatos. Juntos, tiveram menos de 10% de votos, mas fincaram bandeiras alternativas. A juventude e o eleitor tiveram a oportunidade de ouvir propostas novas: a revolução pela educação e a moralização do exercício da política.

O governo Lula anulou o PT e cooptou vários partidos de oposição, como também os movimentos sociais que poderiam apresentar alternativas.

PT, PCdoB e PSB passaram a ver o poder como finalidade.

O PDT de Brizola ainda mantém, nas suas bases, um sentido de busca da utopia do trabalhismo pela educação, mas está subordinado ao projeto hegemônico que o governo representa. O presidente Lula tem sido competente para manter o rumo, felizmente com mais generosidade para com os pobres do que os governos anteriores, mas não tem apresentado compromisso com uma reorientação mais significativa.

O rumo é o mesmo: a indústria mecânica e a exportação de bens minerais e agrícolas como vetores e propósitos do progresso, sem considerar a necessidade de guiar o país rumo à economia do conhecimento, ao equilíbrio ecológico, à valorização da cultura. O governo Lula ampliou a rede de proteção social, mas não construiu o que se esperava: uma escada de ascensão social para os pobres.

Nesse quadro desolador, surge a possibilidade da candidatura de Marina Silva. Em conversa recente, ela disse-me que se sente uma "mantenedora da utopia". Usou essa expressão para justificar sua luta por um novo modelo de desenvolvimento econômico, que passe a incorporar o compromisso com o equilíbrio ecológico, e com a construção de escadas para a ascensão social.

É nesse mesmo sentido que venho defendendo uma revolução educacional.

Porque é na escola que se constrói a nova consciência e se desenvolve a ciência e tecnologia que reduzirão a demanda por recursos naturais e a emissão de resíduos.

Por isso, os militantes que defendem uma renovação do Brasil e cujos partidos não se decidem por um candidato próprio devem comemorar a possibilidade de toda candidatura que recupere o sonho da revolução que o País precisa. Os que não perderam a crença nas mudanças devem se alegrar com candidaturas portadoras de utopias, como a de Marina Silva e outras que venham a surgir.

Como ex-candidato que também tentou ser portador de utopias - sem passar de 2,5% dos votos -, comemoro o nome da Marina Silva e outros, como Heloisa Helena, que darão ao Brasil a oportunidade de escutar propostas alternativas, fora da mesmice.

*É senador pelo PDT/DF

artigo publicado no jornal O G

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